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quarta-feira, 5 de março de 2008

Um dia, um momento....

Acordado numa manhã ensolarada, pronto para iniciar mais um dia. Após ter feito todo o seu ritual matinal, está tudo pronto. Então parte, pensativo, "Hoje estou afim de morrer, ou quem sabe até matar." Não, ele não era um psicopata, ou um maníaco, ele só não aguentava mais o mundo sufocante em que não podia fazer o que queria e tem sempre os que dizem "a gente não pode ter tudo, as coisas não acontecem como nós queremos, infelizmente." Tudo bem, ele não queria que o mundo girasse de acordo com o seu ritmo, com a sua música, ele só estava cansado.
Todos os dias trilha o mesmo caminho, atravessa a mesma esquina, olha para os mesmos lados, tudo na mesma sequência. Pronto! Chegou em seu trabalho. Liga o computador e enquanto espera ouve uma conversa estranha. Mas que ignorou completamente.
O computador está lhe pedindo uma senha. Ele digita e faz o login como Gabrielle Andrade. Dupla identidade? Não. Falhas no sistema e, enquanto aguarda o "já estamos resolvendo", fica tudo como está.
Escuta o barulho de papel sendo cortado, isto significa que vem trabalho por aí. Logo uma colega vai até a sua mesa e entrega dois papéis ridículos e reciclados com diversos números. Sabe o que deve fazer, ligar. A cada ligação ele parte para um mundo onde parece que as pessoas não têm problemas, algumas estúpidas outras uns anjos, mas todas conversando com ele: uma voz ridícula (que nem para cantar "atirei o pau no gato" serve). E era assim ele se sentia algumas vezes, somente uma voz, alguém sem rosto, sem sentimentos.
Se aproxima a hora do almoço, todos ansiosos para encher suas barrigas grandes e vazias.E ele ali, olhando ao redor e sentindo vontade do vomitar, inexplicavelmente. Estava ali se imaginando preso em um prédio gelado e cinza, cheio de janelas. E era esse o lugar onde ele passava parte de todos os seus dias.
Mal havia a manhã havia passado e já fazia contagem regressiva para a hora de ir embora. Mas, meu Deus rapaz! Acalme-se, ainda faltam três horas e vinte minutos. Agora dezenove. Ir para casa, por quê? Então se lembrou dos velhos tempos onde chegava em casa e encontrava seu pai jogado no sofá assistindo aqueles filmes super inéditos e chatos, sua mãe dormindo e quando levantava só sabia mandar e mandar:- Feche a porta, atenda o telefone, mude de canal, recolha a roupa, ponha meus sapatos!
Ele se trancava no quarto, e ficava ouvindo seus CDs, as mesmas músicas e logo chegava a hora de dormir, então adormecia, mas não sonhava, não existia uma razão para sonhar.
Por incrível que possa parecer, ele sentia falta daqueles dias em que ainda era só um jovem morando com os pais. O peso dessa vida de adulto, cheia de responsabilidades era um fardo muito pesado, mas que agora, não tinha mais volta. Era ele e somente ele.
Chega a hora de ir embora... Pronto, já está em casa. Observava atento pela janela, onde escorriam gotas da chuva, o movimento na rua. Pessoas pegas de surpresa, correndo e tentando se cobrir como podiam da água gelada. E ele ali, sentado na sua poltrona, observando a rua. Levantou-se em seu corpo magro e olhou ao redor, analisando o seu apartamento. Pequeno, mas já era suficiente. Sim, ele podia dizer que aquele apartamento realmente era "dele". Mas, seria esse o seu tão sonhado e esperado futuro? Morando ali, naquela quadra, naquele prédio, rodeado por outros prédios iguais? Sozinho.
Tirou da estante um livro, e junto vieram memórias. Aquele tinha sido o primeiro livro que ele havia lido em toda a sua vida. Sonhava em ser escritor, achava fascinante poder criar um mundo paralelo ao caos de onde vivia. À medida que foi crescendo o sonho foi se apagando, escrever um livro não era tão fácil assim como ele imaginara. Guardou-o, em seguida passou a olhar ao redor, observando os retratos. Momentos capturados e que foram eternizados num pedaço papel.