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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O invisível

- ... e toda vez que eu sinto dor, eu fico com mais raiva pois é tudo minha culpa.
- Claro que não. Você não pode se culpar.
- Se eu tivesse agido diferente, nada disso estaria acontecendo.
- Mas aconteceu e você deve lidar com o que está por vir, e não com o que ficou para trás. Agora já foi.
- Eu sei. O pior é pensar que desde o começo eu poderia ter evitado tudo, se eu realmente gostasse de mim como eu adorava falar por aí.
- O importante é que as pessoas gostam de você, sempre gostaram e agora você está se gostando mais, não é? Ninguém vai te abandonar ou te jogar fora, como você mesma disse.
- Talvez, eu quisesse ter me jogado fora anos atrás, e por isso as coisas acabaram como estão. Eu me matei a cada dia que passou, não precisei me cortar ou tomar remédios ou me atirar em frente aos carros. Simplesmente fiz coisas invisíveis, mas que agora estão bem claras e qualquer um pode ver.
Madame Chá se retira da sala, mesmo tendo mais vinte minutos até o término de sua sessão. Ela mesma acabara de descobrir algo que por algum motivo escondera e acabou esquecendo (ou fazendo de conta que esqueceu). Agora tudo veio à tona e ela precisa lidar com o mais difícil, lidar consigo mesma. 
- Eu jamais superei meu problema, apenas fiz de conta que estava tudo bem e com isso eu me perdi - pensou - eu nunca me amei ou sequer me valorizei e agora a vida tratou de me obrigar a fazer isso. Será que não é tarde demais?
Ela precisa lidar com o invisível, os seus demônios internos, que ela mesma precisou despertar após tê-los deixado escondidos e repousando.