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sábado, 12 de dezembro de 2020

Em silêncio

 Ele, o pai, corta uma fatia de pão. Ele, o filho, também.

Os dois servem-se de uma xícara generosa de café. O pai não adoça, adiciona leite. O filho, ainda está refém do açúcar. 

Sentam-se à mesa, um de frente para o outro. Ele, de óculos escuros e o pai, bem, o pai usa os óculos de grau. 

Eles se servem de pão, queijo, presunto e silêncio. 

Não há necessidade de dizer uma palavra. Silêncio. 

O pai termina o café, ele, entre as mordidas naquele pão árido, chora e tenta esconder as lágrimas atrás daqueles óculos escuros. Droga! Elas escapam. 

As bochechas estão úmidas. Ele, o pai, se distrai. Ele, o filho, as enxuga rapidamente.

Ele, o pai, levanta. Terminou o ritual matinal, sem ignorar ele, o filho. 

Ele, o pai, deixou o filho viver o momento dele. Em silêncio, entendeu que ele, o filho, queria ficar quieto.

Ele, o filho, usa de artifícios destilados para se permitir sentir. 

Eles, os amigos e a família, devem achar que ele é apenas um embriagado. 

Ele, o filho, permite-se usar da única droga que ele pode controlar, em medidas, o quanto pode se permitir sentir. Pois uma vez sóbrio, ele é rocha.

Hoje, data solene, dia ridículo que ele quis esquecer. Hoje, o dia grita, seja por ser dezembro, seja por ser apenas aquele ridículo número 12. 

Hoje, ele quis tanto falar e não conseguiu. Hoje, ele preferiu ficar em silêncio.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Sarcasmo

E então eu nasci: bebê. Não O bebê ou A bebê, apenas bebê. Afinal de contas, a sociedade ainda não havia me estimulado a ser alguma coisa. 
Enquanto eu existia bebê, meus pais não quiseram esperar pela sociedade e decidiram me estimular por conta própria. Decidiram que eu seria então O bebê. Usei roupa azul, só fui apresentado a brincadeiras de garotos, sempre brinquei de carrinho, bola, vídeo-game (de lutinha, corrida ou futebol, nada de jogos de menininhas). A Barbie era uma vadia burra, não tinha nada a oferecer. Bonecas em geral né. O bom mesmo era o boneco do He-Man, do Jiraya, dos Power Rangers (aliás, o azul era meu preferido). 
Fui o bebê, o criança, o adolescente. Tanto estímulo certo que me tornei um heterossexual de muito sucesso e convicção. 
Que bom que meus pais me estimularam da maneira correta, pois quando a sociedade chegou, eu já sabia bem o que eu queria, as influências erradas nunca chegaram perto de mim (divas pop, mundo da moda, dança), aliás, dançar pela arte é coisa de bicha, eu danço mesmo é pra pegar mulher. Aprendi dois ou três conjuntos de passos, faço umas firulas e pronto. Tudo certo. Sou um caso de sucesso. Assim que bebês nascem, pais, decidam se querem que eles sejam o bebê ou a bebê.


quinta-feira, 4 de abril de 2019

E veio a cura?

E damos continuidade ao nosso papo sobre Vulnicura (2015). Na postagem anterior, falamos sobre a primeira parte do disco - ou os meses que antecederam a 'tragédia'. 

Black lake é o divisor de águas do disco. Depois de seus 10 minutos e nove segundos de exorcismo e sofrimento (e empoderamento, já citei a parte em que ela diz ter destruído o ícone, entre outras coisas), Björk nos entrega Family (06 meses depois). 



Claramente, as coisas não estão nada bem. Björk já inicia a música de sonoridade bem pesada com a frase "Existe um lugar em que eu possa prestar minhas condolências pela morte da minha família?" E ela segue pedindo o respeito, afirmando que há mãe e filha, pai e filha, mas não homem e mulher. A música ainda segue pesada, mas nada comparado a faixa anterior. Aqui ela já começa a falar em cura. 

A próxima faixa, Notget (11 meses depois) até parece de leve começar mais alegre, mas logo mudamos de ideia, "Certa vez você deixou de amar, nosso amor não era o bastante para te sustentar". A música possui uma batida mais desesperada, com as cordas dando até um ar de mistério ou suspense. O título seria algo "não conseguindo, não recebendo" no sentindo de que ela não recebe mais o amor do marido. 


Então Björk nos entrega Atom dance e a partir daqui os meses já não são mais contados. A música começa apenas com vocais de Björk e logo entram os instrumentais. Aqui sim, parece uma música mais voltada para uma alma mais alegre, não totalmente, mas se recuperando. Música cheia de metáforas (bastante comum em suas composições) - "nós somos nossos hemisférios [...] proponho uma dança dos átomos". Não se engane, Björk feliz não é "bota a mão pra cima e sai do chão". A música se aproxima do fim com Björk declarando "Ninguém ama sozinho, a maioria dos corações teme o próprio lar" [pausa para refletir]. 


Ainda nem tudo são flores no mundo de Björk. "Minha garganta estava entalada com coisas, minha boca estava costurada, proibida de emitir sons, eu não era ouvida." E assim ela começa Mouth mantra. Nesta música, ela faz uma reflexão sobre ela mesma, dizendo coisas como a necessidade de romper com velhos hábitos e fazer algo novo e ela agradece a própria voz que a possibilita fazer muitos sons. 


Percebi que as músicas pós-rompimento (Black lake) possuem batidas mais eletrônicas, são mais "barulhentas". Acredito que isto expresse o sentimento daquele momento, confusão, gritaria, pensamentos rápidos, etc. E Quicksand, a última faixa, não passa nada longe disso. "Quando estou partida, estou completa. Quando estou completa, estou partida". Ela larga essa logo no começo. A propósito, o título quer dizer areia movediça. Ela fala da nossa mãe filosofia e este trecho citado anteriormente é modificado a cada vez para "ela estar partida" e depois para "nós estamos partidos". E ela ainda sofre, é claro "A cada vez que você desiste, você leva embora o nosso futuro...". 

A música é uma das mais curtas do disco, com apenas 3:45min. E o mais curioso é que ela acaba de forma abrupta, parece que ficou faltando um pedaço... 


Mas afinal, ela conseguiu se curar? Conseguiu ao menos se recompor? Ela não foi até o fim com a turnê deste disco, apesar de feitos alguns muitos shows, e prometeu um disco mais feliz aos fãs. Porém, vocês se lembram que eu disse que para a Björk, estar feliz não significa músicas "tira o pé do chão"?! Ela lançou o disco Utopia (2017) e... bem, não falarei sobre ele no momento, agora estamos em Vulnicura. 

Deixo vocês com a primeira música lançada para o Utopia e depois vocês vão tirando suas conclusões. Não esqueçam: imagem, letra, melodia, tem que analisar tudo. Agora, tchau!

"A ferida em meu peito, agora curada, transformou-se em um portal, de onde recebo e envio amor..." (pegaram a referência?)

terça-feira, 12 de março de 2019

Preciso falar sobre o Vulnicura (ou os meses antecedentes)

Já faz um tempo (2015) que Björk lançou o seu trabalho mais profundo, denso e reconfortantemente triste: Vulnicura ou "A Cura para a Ferida". É preciso estar com o coração bem preparado, pois as composições te dilaceram e te curam ao mesmo tempo. Praticamente uma catarse (é preciso também ter tempo, as músicas podem durar até 10 minutos, mas a experiência é tão incrível, você fica tão imerso que o tempo voa). 

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https://www.huckmag.com/art-and-culture/music-2/bjork-vulnicura/

Björk é uma artista que eu considero conceitual. A interpretação do seus trabalhos começa com a capa do disco, e no caso do Vulnicura, a cantora islandesa queria que houvesse uma grande ferida na região do coração. 

Não é preciso saber sobre a vida dela para perceber que houve algum problema de relacionamento (nem sempre problemas deste tipo são por término de namoro ou casamento, podem ser amigos que se vão, brigas em família, pessoa querida que partiu para o outro plano, etc.)

E o que havia acontecido de fato? Björk tinha um relacionamento por mais de uma década com o artista Matthew Barney, tendo Isadora como fruto dele. O término desta relação inspirou o álbum Vulnicura. De acordo com a cantora, "as canções são sobre o que pode surgir em uma pessoa após o término de um relacionamento. Fala sobre os diálogos que temos em nossas cabeças e em nossos corações, o processo de cura." 

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https://grapevine.is/news/2015/01/21/bjorks-vulnicura-first-listen/

Cada canção tem como subtítulo uma contagem de tempo do antes, durante e o depois deste trauma. Começamos por Stonemilker (09 meses antes). É visível perceber que a cantora se dá conta de que algo está acontecendo, "Momentos de clareza são tão raros, é melhor eu documentá-los. Mostre-me respeito emocional, eu tenho necessidades emocionais, eu gostaria de sincronizar os nossos sentimentos". O título da canção vem da frase "pareço estar tirando leite de pedra para te fazer expressar teus sentimentos", então seria "ordenhadora de pedra". 


Lionsong (05 meses antes). Aquele momento em que você começa a se questionar e a pensar no "talvez". Björk começa meio chorando, meio desesperada, meio falando ao vento mesmo sobre que talvez ele saia dessa ou talvez não "de algum modo eu não estou tão preocupada". Se ela desconfiava de algo na faixa anterior, aqui ela tem certeza quando afirma que "talvez este leão (rei) selvagem não caiba mais neste trono". 


Somente com estas duas primeiras faixas do disco eu já fico no chão. Não tive nada parecido com o que ela teve, mas é como se eu tivesse, não consigo explicar. Quando ouvi History of touches (03 meses antes) mesmo antes dela começar a cantar, eu já imaginei uma cena em meio à madrugada, então Björk começa: "eu te acordei no meio da noite para expressar meu amor por você [...] te acordei no meio da noite, sentindo que seria a nossa última juntos". Esta é a faixa mais curta, apenas 3 minutos que te preparam para o golpe final da próxima.


Nos primeiros acordes de Black lake (02 meses antes) você já sabe que vem porrada. Eu não sei como ela conseguiu expressar através do arranjo e da voz tamanha dor. "Nosso amor era meu ventre, mas nosso laço se desfez [...] meu coração é um enorme lago negro enfeitiçado, estou cega, afundando neste oceano". A letra te rasga de fora a fora, aqui o rompimento está mais do que claro, a cantora afirma que o parceiro não tinha nada a oferecer e que o coração dele é vazio e que ela se encontra afogada em mágoas e sem esperanças de recuperação. A canção possui frases muito fortes como, "minha devoção por você fez eu me partir ao meio, então eu me rebelei e destruí o ícone, você traiu o próprio coração." 


A música então acaba, aperto pause e penso no que eu acabei de ouvir. Sempre que resolvo escutar este disco de cabo à rabo, deixo esta faixa para o final ou paro após ouvi-la, tamanho o estado de catarse em que me encontro. Sinto-me emergindo deste lago negro citado na canção. Na verdade, a música (o lago negro) é o que divide o álbum em antes e depois. Existe uma simbologia com a água aí,  minha gente. 

O disco foi muito elogiado pela crítica, obviamente. E eu não consigo imaginar como ela conseguiu cantar estas músicas ao vivo, já que ela havia saído em turnê. O momento parece de purgatório, Björk está expiando suas dores e mágoas, seus problemas. Ela narra em meio a metáforas e outras comparações todo o sofrimento por que passou naqueles últimos meses, enxergando que o fim se aproximava.

Como falei, não tive nada parecido com o que ela teve. Na época do lançamento eu me encontrava muito de bem com a vida. Por que o disco mexeu tanto comigo? Ainda não sei, talvez eu tenha terminado um relacionamento comigo mesmo e começado novamente. Descobri que eu não tinha nada a oferecer a mim mesmo e me mandei embora, e depois passei pelo processo de cura. 

Daqui em diante, teremos Björk falando sobre os meses que sucederam este rompimento. Será que ela conseguiu se curar?

Aguardem...

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https://www.theskinny.co.uk/music/opinion/albums-of-the-year/albums-of-2015-bjork-vulnicura

Empoderosas

E vamos continuar a nossa playlist empoderada. E já vamos começar com a mais poderosa e empoderada dos últimos anos...

Beyoncé. Ela começou no trio Destiny's Child, depois embarcou em uma carreira solo avassaladora. Começou com pop "chiclete" e aos poucos foi se soltando das amarras da indústria e lançou discos bem diferentes, nada de hits para explodir nas rádios, mas canções mais elaboradas e profundas (com exceções, sempre). Apesar de todos atribuírem o poder ao hit Run the world (girls), a música da playlist será da época do Destiny's Child - Independent Woman part 1, lançada em 2001.

A música não foi composta apenas pela Beyoncé, mas nela podemos encontrar "eu trabalho duro e me sacrifico para ter o que eu quero, não é fácil ser independente." Basicamente, a letra fala da independência financeira da mulher e que, claro, traz muitas outras liberdades para a mulher.




Também em 2001, temos Jennifer Lopez. Apesar de ela ter lançado um clipe mais recente em que ela troca de papel e objetifica os homens, não falaremos desta música aqui. A eleita para a playlist foi Love don't cost a thing. Ela se enche de coragem e fala para o cara que o amor dela é de graça, pois ele tenta comprar algo que ele já tem, mas que ela se cansou dos anéis de diamante, dos braceletes e diversos presentes caros e está indo embora. O clipe é sensacional, com ela se desfazendo de tudo o que ganhou.



Seguimos para 2006 com P!nk e U + Ur hand. Bem, P!nk sempre foi empoderada, numa época em que imperavam as divas pop clonadas (todas loiras, falando coisas doces e românticas), ela veio na onda oposta, sendo totalmente despojada e chamando a galera pra festa. Nesta música temos P!nk falando sobre querer se divertir à noite em algum bar/balada e vir o macho chato incomodar, achando que ela está ali por causa dele. Então ela fala em alto e bom som Não estou aqui para teu entretenimento, fique com teu drink e me dê o dinheiro, será só você e tua mão esta noite. Menção honrosa também para Stupid Girls.



Alanis Morissette sempre falou de questões mais pessoais, mesclando até questões sociais em suas canções. E não é a primeira vez que ela se posiciona neste conflito de gêneros. A mais recente contribuição foi Woman down, lançada em 2012. Para mim, a música fala de diversas "etapas" do feminismo de forma simples: usando o cara e as mulheres em volta dele. A primeira a cair foi sua mãe, ela tolerava o teu comportamento. A próxima a cair foi tua irmã, seu silêncio corroborou. E no refrão ela chama todos aqueles que odeiam as mulheres, pergunta porque eles as odeiam e se estão dispostos a começar tudo de novo, de uma nova maneira.



Kelly Clarkson lança Miss Independent em 2003 (uma das compositoras é Christina Aguilera). Na letra, ela mostra que esta Miss Independente abriu os olhos, uma mulher segura e que não aceita mais qualquer coisa vindo em seu caminho e muito menos levar desaforo pra casa.



Lady Gaga vai aparecer aqui com a música Born this way, não exatamente feminista, mas totalmente LGBTQ+ (e ironicamente quis fazer um de volta ao começo, pois esta música é tida como plágio de Express yourself da Madonna, que iniciou este post das empoderadas). A música fala sobre aceitação: pessoal e social. Realmente possui uma letra marcante "Não há nada de errado em se amar do jeito que você é, não se esconda, você está no caminho certo." Lady Gaga é empoderada e poderosa, e encerra aqui a minha playlist - curtinha - de músicas feministas para alegrar e dar forças ao seu coração. 




Músicas ficaram de fora? Com toda a certeza, mas agora é só sair garimpando e montar a tua própria playlist.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Mais uma do almoço

Está dando frutos almoçar e prestar atenção em conversa alheia. Sem maldades. A reflexão de hoje começou com "não vejo sentido e dar bom dia a quem eu vejo todos os dias." Como estas pessoas falavam muito baixo, não entendi o contexto, porém, comecei a minha onda de pensamentos. De fato, bom dia, dou apenas às pessoas que eu começo a ver com mais frequência, sai com mais naturalidade digamos assim. 

Só que esta história do "bom dia / tarde, boa noite" já tem sido diferente para mim, tenho me comportado diferente por uma questão de educação. Cumprimento estranhos na rua (apenas se eles cumprimentam primeiro, daí eu só respondo). 

Só que meu caso é um pouco grave, se eu vejo a pessoa com frequência ou sei que eu a verei logo em seguida, tipo, no dia seguinte, não costumo dar tchau e quando a vejo em curto intervalo de tempo, também não digo oi. É como se a conversa não tivesse sido interrompida. Mas não é regra, de novo, preciso ser educado (mas às vezes acontece de eu não dar oi e tchau, é verdade). 

No whatsapp ainda é pior, lá eu não me despeço, não dou oi e não dou boa noite (salvos os casos). E se eu quero falar contigo, vou direto ao ponto. Não fico de conversa fiada "oi? tudo bem? como tem passado? como foi teu dia?" Eu já chego "fulano/a, vamos em tal lugar? Preciso saber isto e aquilo." É uma questão de praticidade, entende? Pode parecer grosseria porque já aconteceu de a pessoa chegar oi, tudo bem? e eu responder o que você quer?. #grosseria / Em minha cabeça não foi grosseria, foi 'vamos direto ao assunto'. 

Como concluo este meu momento de reflexão? Bem, eu juro que não sou grosseiro, por mais que pareça, mas confesso que tenho impaciência com certas coisas, tipo falta de praticidade (em certos aspectos) ou burrice optativa. Então, amiguinhos e amiguinhas, se eu já fui "fofinho" assim com vocês, entendam que não foi por mal. E fica a dica: quando eu não gosto de alguém ou de algo, eu simplesmente me calo e me retiro.

sábado, 9 de março de 2019

Empoderadas e Poderosas

O Dia Internacional da Mulher já passou e, inspirado pela ocasião, resolvi procurar pelo mundo pop músicas e cantoras empoderadas. Vamos ouvir?

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https://metronome.uk.com/events/women-in-music/women-in-music/
Vou começar pela clássica Express yourself da Madonna. Um hino feminista do fim dos anos 80. Madonna foi uma das primeiras feministas no mundo da música - ou pelo menos a com maior visibilidade. Graças à sua coragem, muitas cantoras podem fazer e ser o que quiserem nos dias atuais. Se a porta para a libertação estava entreaberta, Madonna a escancarou com um pontapé certeiro.


Na canção, Madonna chama todas as garotas pra briga e pede para que se expressem e não aceitem qualquer coisa dos caras. "Expresse-se e Respeite-se", ela canta mais ao fim da música.

Ainda nos anos 80, temos a divertida Girls just want to have fun da Cyndi Lauper, lançada em 1983. Na canção, Lauper afirma que as garotas só querem se divertir, como se isto fosse algo impossível (e de fato era, e acredito que ainda seja em muitos casos). A sociedade exige que a mulher trabalhe, cuide da casa e dos filhos e do marido, ele chega em casa e comida deve estar pronta. Nada disso, elas fazem o que elas querem e quando querem. E se quiserem apenas se divertir, que assim seja.


O ano agora é 2013, a cantora é Dido. Em End of night, Dido fala sobre um relacionamento ruim que teve e agora estando livre, ela pode aproveitar a vida. "Eu não senti nada quando te vi chorar, eu não estou te ouvindo então nem perca seu tempo tentando me responder. Venha aqui, assim você poderá me ver partir e curtir o fim da noite." Ela está no controle e deixando claro: eu não preciso de você. 



Em 2014, Lily Allen foi fundo e criticou a postura da indústria musical com as mulheres. Em Hard out here, a cantora fala que se uma mulher comenta sobre sua vida sexual, é chamada de vadia, mas quando os caras falam sobre "suas vadias", ninguém comenta nada. A música ainda fala sobre a objetificação da mulher, sobre a cultura do corpo perfeito e sobre desigualdade e injustiça. Aproveitem e vejam também o vídeo clipe.



Seguindo por esta mesma linha, temos Christina Aguilera. Can't hold us down foi lançada em 2002 e fala sobre o fato de que nunca se espera que uma mulher emita opinião, aquela história de que quando um homem faz é ok, mas quando é a mulher que faz, ela é rotulada de todas as perversidades. Ela chama as mulheres para se unir e canta em alto e bom som "eles não podem nos segurar". 



Joss Stone é na dela, mas é muito empoderada. Neste caso, ela aparece aqui na lista por ter sido corajosa. Ela rompeu o contrato com uma gravadora (EMI) que a estava prejudicando e criou seu próprio selo, o Stone'd Records. Resumindo o caso, ela gravou um disco e a gravadora disse que não estava sabendo de nada e não iria autorizar o lançamento, o disco ficou "preso" por um bom tempo. Quando Joss finalmente conseguiu lançar o disco em 2009, ela fez questão de compor uma música, a Free me, em que pede "Liberte-me EMI. Não me diga que eu não irei, pois eu vou, não me diga que não sou, pois eu sou. Não deve ser algo que estejam acostumados a ver, uma garota que vai atrás do que quer, num mundo que tenta tirar o seus sonhos." Bravo, Joss!



E não para por aqui, ela está em turnê já não sei há quantos anos, visitando todos os países do mundo. Fazendo o que ela quer, quando quer. Procurem no YouTube os registros desta turnê, ela faz duetos com cantores locais. É lindo de se ver e ouvir. 

Acho que vou ficando com minha playlist por aqui, mas logo eu escrevo a parte 2. Tem mais cantora empoderada vindo aí. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

Reflexões do almoço

Durante meu tranquilo e solitário almoço, acabei ouvindo a conversa da mesa ao lado (eles estavam falando alto, foi inevitável). A conversa me fez pensar sobre algumas coisas. 
Eis que a moça estava narrando suas aventuras no carnaval e, em dado momento, disse que acabou a noite numa casa noturna e adicionou o parênteses desnecessário: era 99,9% gay. Então um dos moços que estava com ela complementou "aaaaah bom, agora faz sentido, porque eu nunca tinha ouvido falar desse lugar, tá explicado, é uma boate gay". Aaaah bom, moço, eu estava ficando preocupado, imagine você, hétero, conhecendo locais arco-íris né?! Saiba que eu também não conheço esta boate aí, estou virando meio hétero?
Enganchei um outro pensamento: quando héteros, geralmente homens, dizem que vão a baladas gays, vem sempre a justificativa "a música é boa; a bebida é boa; as coisas são baratas..." Parem, parem, parem. Simplesmente digam que vão porque gostam, não te faz menos hétero frequentar uma balada gay, sabia? Deixem este medo e preconceito de lado. Eu "mesmozinho" tive uma infância e adolescência regada de lugares e hábitos ditos hétero e no fim das contas... gay estou! Estranho...
Bem, voltei ao mundo real a tempo de ouvir o outro moço falando "... sempre me respeitaram. Teve só uma vez que um cara passou a mão em meu peito e eu já fiquei 'ê, sai pra lá'." Minha vontade nesta hora era novamente me intrometer na conversa e dizer: moço, sabia que isto acontece com as mulheres o tempo todo e em todos os lugares e a qualquer hora do dia? Veja como é incômodo e errado. E se a moça reclama, é capaz de piorar o assédio e ela ainda levar uns tabefes nas ventas só porque ela também ficou 'ê, sai pra lá'. Aliás, não é só hétero que assedia mulher não, gay também assedia gay. O simples fato de você estar na balada já justifica a gay vir lhe passando a mão. Amigo, vamos com calma. Fica a dica aí pra todo mundo: nada de sair alisando e apalpando os amiguinhos, não é correto e não é legal. 
Por fim, fiquei pensando, vamos nos libertar das amarras? Vamos cuidar para não invadir o espaço do outro? Vamos procurar fazer aquilo que gostamos, sem justificativas? Vamos ser felizes, sempre respeitando o próximo? Vamos nos permitir! 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Tudo bem?

A trivial pergunta "tudo bem?" nunca mais teve o mesmo efeito - ao menos não teve mais a mesma resposta. Eu não faço ideia se estou bem ou mal, eu apenas vou seguindo. Há dias em que parece que tudo foi superado, em outros parece que foi ontem, pois a dor me consome por inteiro. Me sinto derrotado.
Apesar de eu estar lidando com as minhas questões, tenho tendência a me fechar em meu casulo ou criar uma espécie de muralha, e sobrevivo. Porém, em alguns momentos esta muralha cai e então eu exponho toda a minha vulnerabilidade e me despedaço. Será que isto algum dia vai passar?
Então eu passo a evitar as coisas que me deixam vulnerável e exposto, infelizmente eu acabo voltando ao casulo. Ando tão cansado, sem ter tido o tempo pra mim e com isso acabo extremamente irritado, não quero ver pessoas, não quero sair pela rua, não quero ouvir música e nem trocar de roupa. Mas sou forçado a fazer tudo isso e então buuum, eu explodo feito uma bexiga que recebeu mais ar do que poderia aguentar.
Eu estou assim, inconstante... mas sou cobrado por isso e a cobrança me faz retroceder mais ao invés de me permitir avançar. Está difícil. Sigo calado.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A última

Ontem foi a última. Pela primeira vez, foi a minha última apresentação do ano.
Da última vez em que estive lá, ele ainda vivia (já no hospital, mas vivia). Da última vez que me recordo, dancei aquela coreografia com ele literalmente ao meu lado, e foi a última coreografia de ontem, a última coreografia do ano.
Foi difícil ontem. Eu o via em todos os cantos, eu o via tirando fotos naquele estande com os anjos, pois pelo que eu me lembre, da última vez ele tirou algumas fotos ali.
Últimos dias do ano, primeiras datas festivas sem ele. Ando mais sensível, minha tristeza/saudade se transforma em irritação, pois se une ao cansaço do ano conturbado. Eu preciso parar, preciso de uma pausa. Preciso fazer nada.
Ontem foi a última...
Ah, se eu soubesse que aquela seria a nossa última dança.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A máscara

"Agora eu já posso passear." Foi o que você me disse quando recebeu esta máscara. Estava todo contente por ter tido a oportunidade de sair daquele quarto de hospital, após dias sem ver a luz do sol. 
"Sexta-feira eu acho que já vou para casa!" Você me contou. Contudo, na sexta, meu telefone tocou e a voz do outro lado dizia: "Teu irmão foi para a UTI. Apenas para..." e ali eu já sabia que tinha alguma coisa errada e aquela informação era um tanto falsa. Até mesmo a voz do meu pai, do outro lado da linha, carregava a incerteza em tudo o que proferia. "É, teu irmão não sai dessa não!" A frase que não me assustou, mas me feriu bem fundo pelo simples fato de eu ter concordado com ela. Não era pessimismo, não era falta de esperança, acredite. Na verdade, poucos tiveram a coragem de falar em voz alta como o meu pai fez. Como eu também o fiz: "Amiga, meu irmão não sai daquele hospital." Falei aos prantos a frase que mais me machucava, a verdade que mais corroía o meu ser. 
Antes de toda a nossa rotina avassaladora que durou 29 dias, eu disse ao meu irmão "hoje você não volta pra casa". Falei por saber que ele estava mal e precisava ficar internado um pouquinho. O problema é que ele não voltou de verdade. Também teve a profética: "Nossa, deve ser a tua única refeição do dia." Demos risada, pois ele me contava sobre o tamanho do pão que serviram no café. E, de fato, nunca mais ele comeu normalmente, pois poucos dias após estas mensagens, o coma. 
A hora do almoço nunca mais foi a mesma. Era o momento de receber o boletim diário daqueles que haviam ido à visita. Eu comia sem sentir gosto ou cheiro. Eu comia sem ter fome. Eu comia porque eu sabia que precisava de energia para viver. Eu comia querendo morrer. 
"Mãe, minha colega de trabalho ofereceu umas sementes e orações, se você acreditar pod..." fui interrompido por ela: "Filho, teu irmão está desenganado." O tempo parou, o vento soprou mais devagar, as pessoas se moviam feito borrões ao meu redor, nenhum som mais foi ouvido. Eu me encontrava ali, naquela sala que se tornou imensa, senti-me sozinho e abandonado. Então meu telefone começou a tocar, mensagens começaram a chegar. Todos querendo saber o que estava acontecendo, e eu apenas desaparecendo. Eu não tinha mais forças para atualizar os amigos. Passei a mentir "ele está estável, não melhora e nem piora." 
Voltei ao mês de janeiro quando contei a mentira maior. Meus pais saíram de férias e me deixaram uma tarefa - "Fique de olho em seu irmão, ele anda muito estranho", respondi prontamente que não tiraria os olhos dele. Realmente, ele estava estranho, falava menos, saía do quarto menos, comia menos, fazia tudo menos. Quando tive a chance, falei sobre o tamanho da minha preocupação por ele... finalmente ele me confessou. Dizia ter dores ao comer, que já havia ido ao médico, tudo estava em ordem, logo a saúde estaria de volta ao normal. Mentira. Mentira atrás de mentira. Mandei mensagem aos meus pais e assinei a sentença: "Ele está bem, só queria ficar um pouco sozinho. Aproveitem a viagem." Eu só pensava em não deixar meus pais tão preocupados, pois parecia ser algo tão pequeno. Afinal, ele havia ido ao médico que o diagnosticou com gastrite. Remédios tomados, tudo sendo bem tratado. 

Mas ele continuava fazendo tudo menos. Veio a tosse suspeita, mas o próprio nos disse "É reação ao medicamento." Fingimos acreditar, hoje eu penso que deveríamos era ter sido teimosos e tomar uma atitude mais agressiva. Não, não quero lidar com os "e se" da vida, acredito que tudo aconteceu porque sim! Um dia antes de ser internado, passou a tarde com os sobrinhos, mesmo com dores horrendas na coluna. Já era o primeiro passo de sua despedida. "Você vai ao médico, conte tudo o que está acontecendo, não esconda nada! Se voltar pra casa eu te carrego de volta debaixo de porrada. Você não vai voltar pra casa..." E foram minhas últimas palavras cara a cara com meu irmão. Depois foram apenas desejos, esperando atingir seu coração... o coma! E tudo acabou. Logo eu que não ligo para datas, veio o dia 12 e ocupou a vaga. Eu tento não pensar, tento não contar, mas quando a data chega, impossível indiferente eu ficar. 

"Eu não estou longe, apenas estou do outro lado do caminho..." (Santo Agostinho) 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O colchão

Um simples colchão. Não há nada demais. Este colchão tem a mesma finalidade dos outros - servir de apoio para o corpo cansado relaxar. É o lugar aonde passamos mais horas de nossas vidas. O colchão. Repentinamente eu me dei conta do quanto aquele colchão me machucava, não ao meu corpo, não está na hora de trocá-lo - aliás, ele é novo -, ele machuca meus sentimentos. Mas como? Simples: a finalidade dele era única. Eu comprei para substituir um colchão velho que já não servia mais para aquele corpo. Eba! Colchão novo... só que ele não chegou a ser usado por quem fora destinado. Então, este colchão por um momento representou o retorno de alguém, a esperança da volta, o dono ausente. Agora ele representa a esperança e a vontade de ter alguém voltando pra casa, mas que nunca voltou. Uma esperança que feito nuvem se evaporou. O colchão ainda está lá, cumprindo o papel dele, mas ainda me machuca cada vez que penso nele.  

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Shakira - Duetos (final)

E o show já foi e eu fui também! Só tenho uma coisa a dizer: foi incrível! Mas vamos manter o foco, pois preciso finalizar a lista de duetos de Shakira. 

fonte: papel pop
Vamos relembrar que mencionei os duetos em que, na realidade, ela foi convidada e não a "anfitriã". No entanto, preciso fazer menções honrosas aos duetos que fazem partes de seus discos.

Começamos com a quentíssima parceria com Alejandro Sanz


Seguimos com a recordista Hips don't lie com Wyclef Jean



Então passamos para o romantismo com Carlos Santana



Teve uma parceria mais urbana com Lil Wayne


A sensualidade latina representada por Loca e Rabiosa com El Cata



E a provocadora "sofrência" com Rihanna



Sim, deixei de fora as parcerias com Maluma e Carlos Vives, pois são mais recentes e estão aí, na boca do povo. E voltando à programação normal, damos início à última parte dessa lista com 

SHAKIRA E PRINCE ROYCE
Fonte: Vagalume,com
E 2017 começou com este encontro entre o americano e a colombiana. Uma deliciosa bachata, fazendo jus ao estilo. Podemos dizer que a bachata seria a nossa sofrência sertaneja? Que tal este trecho "Você me abriu as feridas que eu já havia curado com limão, tequila e sal". A música foi lançada no disco Five (2017) do cantor e depois foi incluída no El Dorado (2017) de Shakira. No clipe, Shakira está lá, como sempre, dançando. Eu sempre que ouço uma bachata, já saio dançando e com este dueto, não poderia ser diferente. 



SHAKIRA E MANÁ
Fonte: LatinPop Brasil
Quem aqui não se lembra de Maná? A banda de rock mexicana convidou Shakira para uma parceira na música Mi verdad (2015). Foi lançada como primeiro single do disco Cama Incendiada, nono álbum do grupo. A canção foi trilha de uma novela mexicana chamada Sueño de Amor. Ah, Shakira estava grávida nesta época. 



SHAKIRA E BLACK M
Fonte: YouTube
E chegamos ao fim desta lista da melhor forma possível, dançando! Shakira juntou-se novamente com um rapper, desta quem a convidou para um dueto foi o francês Black M para o seu disco Éternel insatisfait (2016). A música, claro, também foi incluída no El Dorado (2017). É dançante, um pop/hip hop, com aquela batida latina que podemos encontrar em Hips don't lie, por exemplo... ah, chega de falatório. Dá o play! 


É isso! Espero que tenham gostado da lista, quem ainda não conhecia Shakira e/ou estas canções, espero que tenha se divertido com as "novidades". Fico por aqui e até a próxima.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Tentei fazer uma canção

Eu queria muito te escrever uma canção
Mas eu tentei fazer as palavras saírem do coração
Procurei por versos, rimas,
Queria alguma sensação
Mas no final, não consegui nem poesia nem som

Então deixei a ideia de lado
Procurei não forçar a situação
E numa noite dessas
Sonhei com tudo
Inclusive poesia e som
Ao acordar, uma frustação
Não lembrava de nada
Só me restava a sensação

Sonhei que eu cantava minha canção
Você sorria, emocionado, eu sei que toquei seu coração
Tudo era branco, uma paz
Todos choravam de emoção
Mas eu acordei, não lembrava da canção

Tentei muito lembrar cada verso
Melodia
Som
Não adianta, não consegui te escrever minha canção
Espero que entenda
Não desistirei não
Um belo dia eu sei
Vou te escrever uma canção

Saudade aperta o coração 
Mas eu não vou desistir não 



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Revendo "A dama na água"

Eu já mencionei por aqui que não me considero crítico (especialista) em nada. Quando comento sobre filmes e música, deixo apenas minhas sensações. Dito isso, vamos para a conversa de hoje. 

A DAMA NA ÁGUA 

http://movies.radiofree.com/reviews/ladyinth.shtml

Lançado em 2006, A dama na água (Lady in the water) é um filme do diretor M. Night Shyamalan - que também dirigiu O sexto sentido - e que acabou me surpreendendo. Como já sabem, adoro filmes de terror/suspense e, na época, recordo-me de que o trailer passou uma ideia de que seria um filme do gênero. Eu não poderia estar mais enganado. 

Sendo curto e grosso: é uma fábula. Fugindo do tradicional, o filme não nos tenta convencer de que é uma fábula, ele simplesmente segue o fluxo como se tudo aquilo fosse normal. Eu confesso que demorei a perceber isto, passei mais da metade do filme esperando aparecer algum fantasma ou algo parecido. Depois de muitos estranhamentos, quando o filme chegou ao fim eu me peguei com o olhos marejados. Exagero? Pois que seja. 

No geral, o filme foi muito apedrejado e não vou discutir esta questão aqui. Não me interessa mesmo. O fato é que depois de O sexto sentido, acredito que muitos pensaram que todos os filmes dele seguiriam a mesma linha. 

Há um quê de mistério nos filmes de Shyamalan (pelo menos nos que eu assisti), mas passa longe de ter aquela tensão que causa os famosos sustos nos espectadores. 

Por que os estranhamentos? Os personagens aceitam muito fácil a situação fantástica que o filme apresenta: ninfa do mar, criaturas da floresta, águia gigante. Então eu paro e penso, em fábulas ou contos de fada acontece a mesma coisa, animais falantes, árvores falantes, tudo é tido como algo natural, a diferença é que estes são geralmente animações/desenhos e A dama é com gente de carne e osso. 

O que me surpreendeu mesmo foi a história, e é bem simples: humanos e seres do mar perderam o elo de comunicação e ao perdê-lo, por culpa dos humanos, o mundo dos homens tornou-se ganancioso e descontrolado, com guerras e destruição. No entanto, os seres do mar nunca desistiram de tentar se comunicar com eles. Manda uma criatura para a Terra vez ou outra com uma missão e depois esta criatura precisa voltar para casa. Claro que nem tudo é tão simples assim.

O filme trata-se de fé, sem ela, nenhuma personagem teria seguido em frente para ajudar a ninfa a retornar para o seu mundo. Trata-se também de conexão/cooperação, sim, estamos todos conectados de certa forma e cada um pode contribuir para o bem geral. Para ajudar Story (a ninfa) a retornar para casa, é preciso encontrar um curandeiro, sete irmãs, um guardião (e devo estar esquecendo de algo) e cada um exercendo a sua função, contribuem para um alvo em comum, ajudar o próximo. 
"Obrigado por salvar a minha vida"
"Obrigado por salvar a minha vida"
http://www.fanpop.com/clubs/m-night-shyamalan/images/1027044/title/lady-water-screencap

Não posso deixar de mencionar as coincidências. Muita gente acredita que elas não existem, tudo acontece pois já estava traçado. E no filme, a maior coincidência de todas foi quando descobriram quem era o verdadeiro guardião, aquele que poderia derrotar a fera que tentava aniquilar Story. Ele apareceu no momento exato! Parece incrível não é?! Mas quantas vezes isto não acontece conosco? 

Alguns acreditam e outros não, mas viemos ao mundo com um propósito e vamos descobrindo sobre isto no decorrer de nossa jornada. No filme, personagens que pareciam "inúteis" (digamos assim) são extremamente necessários para o desenrolar da grande tarefa: ajudar Story a voltar pra casa. Em outras palavras, todos temos nosso propósito neste mundo, por vezes descobrimos por conta própria e outras vezes alguém nos ajuda a perceber a nossa importância. 

E os meus olhos marejados? Quando a última cena ocorreu, tomadas vão mostrando todos aqueles que foram responsáveis por aquele desfecho. Eu me dei conta desta corrente de pessoas do bem, praticamente estranhas umas para as outras, mas unidas por um propósito. É como quando a gente vê aqueles vídeos "recuperando a fé na humanidade". Parece frívolo ou simples demais para me emocionar, mas me emocionou.

http://www.fanpop.com/clubs/m-night-shyamalan/images/1027068/title/lady-water-screencap
O filme tem falhas? Deve ter. Assim como eu falei no post sobre "The veil", eu gosto mesmo é da experiência, para mim, ela foi boa. Ver e rever este filme foi uma surpresa boa.  

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Shakira - Duetos (parte II)

Vamos dar continuidade ao nosso especial Shakira! E já começo com um tiro no coração (ao menos para mim).

SHAKIRA E MIGUEL BOSÉ
https://www.youtube.com/watch?v=_nb0mouZBhw
O dueto foi uma regravação da canção Si tú no vuelves, lançada em 1993, do próprio Miguel. A original pertence ao disco Bajo el signo de Caín (1992) e a regravação é do Papito (2007). Para mim, esta é uma das músicas mais tristes já criadas, tanto pela letra quanto pela melodia. Quem me apresentou foi um amigo muito especial que já não está mais entre nós. Sendo assim, muitas lembranças. Ouve aí e me diz. 

 

SHAKIRA E IVETE SANGALO
https://noticias.bol.uol.com.br/fotos/entretenimento/2014/07/16/em-poucos-passos-copie-os-cabelos-de-ivete-sangalo-e-shakira-na-final-da-copa.htm
Finalmente! Talvez fosse um dueto muito esperado pelos fãs. Duas musas latinas unidas. E provavelmente, muitos conheçam a faixa. Shakira foi chamada a fazer uma participação no disco de Ivete Sangalo, o Real Fantasia (2013). Teria todos os ingredientes para ser um hit, mas problemas de autorização impediram o dueto de figurar na versão física do disco, ficando apenas como faixa-bônus na versão digital. A letra não me agrada muito, poderia ser mais explorada, mas para se dançar, não tenho do que reclamar. Ivete e Shakira pedem e repetem "dançando, dançando, dançando" e fica meio difícil de ficar parado. Teve clipe, mas infelizmente foi sem Shakira. 



SHAKIRA E BEYONCÉ
http://weheartit.com/entry/99393119
Outra combinação explosiva lançada em 2017. Beautiful liar foi um belíssimo diálogo entre Beyoncé e Shakira. A americana até aprendeu a fazer uns movimentos de dança do ventre para o clipe. A música é uma bela mistura do R&B e hip hop de Beyoncé com os elementos latinos e arábicos comuns em Shakira. As duas descobrem que estão sendo enganadas pelo mesmo homem. Ao invés de brigar, resolvem se unir e não perder a amizade e percebem que não vale a pena se desgastar por este "belo mentiroso". A música está na reedição de B'day (2006). Um versão que misturava o espanhol também foi lançada, mas sem Shakira, chamada Bello embustero. 



E aqui termina a parte dois. Apesar do começo entristecido, terminamos cheios de alegria com dois duetos para se dançar. Fiquem ligados que logo mais teremos a continuação. Shakira e seus duetos daria um CD inteiro. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

E eu te vi

E eu te vi adoecer. Seu olhar foi ficando triste, parecia não haver mais vontade de viver. Sentar, levantar, andar, correr e dançar. Tudo tornou-se uma tarefa árdua. Tua rotina agora era comer, dormir e a dor suportar.
E eu presenciei tua mudança de humor. Tua tranquilidade e serenidade deram passagem à agressividade e rispidez. Desconfiei que algo estava errado, mas não imaginei que seria algo tão amargo.
E eu vibrei com a tua tentativa de dar a volta por cima. Você arregaçou as mangas e praticamente deu o seu grito de independência: “A dor eu controlarei e minha vida eu reerguerei.”
E eu vi seus sonhos se desmancharem feito papel molhado. Foi quando seu corpo já gritava que dali em diante, ele não funcionava.
E eu te vi perdendo a fome. E eu te vi perdendo a luz. Você tentou e tentou e tentou. Para não dizer o quanto lutou. Teu corpo já não suportava, e sua alma agora se libertava.
E eu te vi definhar. Aquele corpo naquela cama não era mais teu, eu não podia mais te reconhecer naquela casca. E então eu rezei...
Pedi por tua liberdade, por tua saúde, por tua reconquista, seja lá como tudo isso seria adquirido. Eu só precisava te ver novamente feliz.
E eu te vi partir. Abandonou aquela casca enfraquecida, frágil, sem vida.
E eu te vi sorrir. E eu te vi dançar. E eu te vi fazer tudo o que sempre quis. Sei que algumas vezes você vem me visitar. Sei que algumas vezes eu fico a chorar. Sem dor, sem tristeza. O que persiste e o que dura é o amor, a saudade e a certeza. Sim, estou certo de que agora você está livre, saudável e no comando da tua vida.
E eu finalmente aprendi... 


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Eu e os filmes de "medo"

Eu não sou crítico de cinema e muito menos vejo filmes assim: “oh, a direção de arte está belíssima”, “oh, a fotografia está incrível”. No máximo eu digo “gostei da trilha sonora e os atores foram bons”.
Constantemente eu penso que tudo aquilo de que gosto, as pessoas odeiam e vice-e-versa. Falta senso crítico em mim? Talvez. Eu gosto mesmo é da experiência, se está me fazendo bem ou não. E assim eu fui assistir a um filme chamado “The Veil” (em português ficou “A Seita”), tem na Netflix para os curiosos.
https://gruesomemagazine.com/2016/01/27/the-veil-2016-much-ado-about-nothing-much-at-all/
Confesso que meu critério para escolher um filme geralmente se baseia em quem está no elenco, não por qualidade do ator, mas por empatia minha. Adoro Penélope Cruz, Natalie Portman, Angelina Jolie, Julia Roberts, Nicole Kidman (a lista é grande), se vejo seus nomes na capa de algum filme, vou atrás. E aconteceu que Jessica Alba e Lily Rabe estrelam este filme (Jessica tem me decepcionado um pouco, confesso).
Outro critério é favoritismo. Adoro filmes de terror e suspense, não pelos sustos, mas pela tensão. Aí entra a questão da experiência: filmes destes gêneros me conquistam quando me prendem psicologicamente. Sustos aleatórios e gratuitos não me convencem mais. Sangue jorrando (cenas de nojeira, como eu costumo dizer), tampouco. A propósito, eu nem me assusto mais nestes filmes, pois são muito previsíveis.
No caso do “The Veil”, em determinada cena havia um cadáver em decomposição, as pessoinhas que encontraram o corpo acabaram cobrindo com um plástico branco. Então a protagonista (Lily) fica ali, sentada, olhando pro cadáver (sozinha, óbvio) e falando coisas. Eu pensei “este corpo irá se levantar em 3, 2, 1...” e não deu outra. Susto? Não em mim.
https://www.pophorror.com/review-the-veil-2016/
Se eu gostei do filme? Sim, gostei (esperando a enxurrada de pessoas dizendo que o filme é uma porcaria). Mas por que eu gostei? De fato, o filme não é bom, têm cenas um pouco forçadas, fracas demais, porém o interessante para mim foi a história mesmo, pegaram um fato “real” (existiu uma seita chamada Heaven’s Gate, a do filme é Heaven’s Veil) e inventaram uma explicação/continuação para aquele suicídio coletivo que ocorreu. E foi aí que eu gostei. Mesmo sendo uma coisa muito alucinógena, a ideia me agradou. Uma coisa meio “The skeleton key”. Eu assistiria ao filme novamente? Talvez.
Eu sinto falta de filmes como “The others” e “The conjuring”, em que o terror/suspense é sugerido e não escancarado, pois odeio quando fica aparecendo a assombração. Eles tentam deixar a criatura medonha, mas fica muito artificial. No Invocação do mal (The conjuring), pelo menos na primeira parte do filme, você fica super tenso, pois nada é visto, você apenas ouve barulhos (e não é assim que acontece conosco na maioria das vezes?). Aliás, nada contra filmes de susto e assombrações medonhas, até assisto. Mas eu já sei o que me aguarda em cada cena.
“The Veil” ou “A Seita”, como preferir, decepciona por ser um filme mal executado, mas mesmo assim me conquista por sua história (mesmo que apresente algumas falhas), pois me mostrou algo que estamos vendo o tempo todo, o fanatismo religioso, a crença de que um líder detém todo o poder e sabedoria, fé cega que levou e leva pessoas a fazerem coisas absurdas, como morrer ou matar, acreditando que terão vida eterna, etc., etc., etc. A propósito, o ator que faz o líder religioso (Thomas Jane) está de parabéns por sua atuação. E Lily Rabe nem preciso comentar.
https://nevermore-horror.com/the-veil-review/
Vale a pena ver o filme? Digo que sim. Mas ele não irá causar nenhum impacto em sua vida. Falar em impacto, lembrei do “The Poughkeepsie Tapes”, mas isso fica pra outra hora.